Sonho cocteauniano

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Era um sonho saído de um filme do Jean Cocteau. Em preto e branco, com uma fotografia nebulosa. Braços musculosos saiam da parede segurando enormes consolos de borracha. Ele caminhava pelo corredor, seguido de perto por Orfeu com seu topete impecável e seu ar de dúvida. Estou confuso, ele dizia. Eu sei, Orfeu respondia. Eu sei. Mas vai ficar tudo bem. Tudo bem. Ao final do corredor, ao invés da Fera ele encontrou uma enorme sala vazia com um buraco no teto. De lá um lindo anjo com cara de WASP americano, músculos definidos, completamente nu, totalmente sem pêlos e um imenso par de asas coloridas veio em sua direção, dizendo:

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Greetings, prophet! The great work begins! The Messenger has arrived!

Ele não se assustou. Na verdade ele esperava por isso há muito tempo. Desde o dia em que ele se viu fraco e covarde, quando percebeu que abandonara alguém especial por pura fraqueza, por medo de ver o lado mais real, doentio e solitário da vida, desde este dia, ele aguardava por um anjo que viria buscá-lo. Assim como Orfeu ele sonhara um bocado com a Morte. A sua Morte e a dos outros também.

Ainda assim esse anjo lhe parecia trazer outras mensagens.

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The body is the garden of the soul.

Ele lembrou que deveria cuidar mais da sua alma, seu espírito. Por que tenho me sentido tão preso a essa pele. Sangue, pulsação, lágrimas, orifícios de carne, cabelos.

I I I I am the book!

O livro que ele não escreveu é o livro que ele vive. Seus sonhos e fantasias, suas personagens. Seus momentos mais reais parecem distantes mesmo quando presentes. Arroubos de raiva. Gritos insensatos. Arrependimento e culpa. O outro silencia. Balança a cabeça num gesto de negação, repreendendo os ataques quase epiléticos que ele tem tão freqüentemente. Por que tanta raiva? Ele já se viu velho, sozinho, pobre e abandonado, comendo restos de comida na rua, cercado de cachorros pulguentos lambendo suas feridas. O outro estará sempre ali ao seu lado. Mas e ele? Ele continuará ali? Ele não duvida do outro. Apenas de si próprio.

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Orfeu o lembra de que a Morte pode distraí-lo de seus reais objetivos, do que realmente importa. O anjo. O anjo careca, sem pêlos e tão belo desce do teto à sua frente. Suas asas coloridas com as cores do arco íris ruflam suavemente.

"Essas cores... elas são da bandeira do orgulho gay," ele diz.
"E por que outra razão você acha que eu as tingi assim? Gays são alegres, coloridos e devem sempre buscar beleza e harmonia. Não essa lugubridade, esse rancor, essa tristeza toda que você cisma em se impor," respondeu o anjo.
"E se anjos não têm sexo como é que você tem essa coisa enorme pendurada entre as pernas?"
"Mesma razão. Não vou me repetir. Posso dizer que era para chamar a sua atenção. Viu como deu certo?"
"Sem dúvida."
"Está pensando naquele outro, não? Está com saudades. Percebo em seus olhos."
"Não é verdade. Estou com saudades, sim. Mas sinto saudades do início. Da época em que bastava olhar para ele para que meu coração se enchesse de emoção e lágrimas rolassem pelos meus olhos. Eu me sentia tão pleno, tão seguro, tão amado e completo..."

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"Mas está pensando em outra realidade. Sonhando com algo impossível e inexistente. Confesse e isso já será um belo passo para a cura. Enfrente a realidade!"
"É fácil para você falar. Você é um anjo. Não existe. E se existisse e fosse assim belo desse jeito, tesudo e bem dotado, não teria nenhum problema desse tipo."
"Que tipo?"
"Medo de ficar sozinho. Teria a companhia eterna de quem quisesse."
"E desde quando ser belo é algo realmente importante? Beleza demais pode atrapalhar. Como dinheiro demais. Ou qualquer outra coisa em excesso. E você sabe disso."
"É... já ouvi essa história zilhões de vezes..."
"E quem é você para reclamar de falta de beleza?"
"Eu tô falando em beleza de verdade, daquela que a gente vê na televisão e nas capas de revistas."
"Não é garantia de felicidade, já falei."
"Eu queria que um raio caísse na minha cabeça e me fizesse parar de querer entender as coisas e procurar explicações. Queria simplesmente aceitar o que a vida me apresenta."
"Threshold of revelation."
"O que é isso?"
"Um momento de epifania. Um hora isso vai acontecer. E você vai saber, vai sentir e aceitar. E verá que sua vida é tão mais feliz do que você jamais poderia supor. Aproveite-a."

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"Acho que já estou começando a sentir isso... Esse é o limiar da revelação... Agora."

Fotos: Angels in America, direção Mike Nichols, 2004.
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2 Comments

Pra mim isso eh mais um teto de uma pessoa emaconhada!! =D
auehaeuaheuheueh

Ih... Também estou a procura deste raio, que não me parta, mas me faça parar de tentar entender o que não precisa ser entendido, só vivido, e parar de abrir as portas do passado e fechar a porta para o PRESENTE!UI!
Adorei o texto!
Bjs,
Titica Bradshaw

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