
Outro dia no trabalho, estávamos conversando durante o almoço sobre a atual edição do Big Brother Brasil, o famigerado programa da Rede Globo que está surpreendendo a todos. Éramos quatro em torno da mesa do almoço: eu, meu chefe e duas secretárias. Somos todos amigos e eles me conhecem tão bem quanto eu a eles (e isso é bastante, pois já trabalhamos juntos há dez anos). A conversa começou de forma bem descontraída, sobre o fato do Jean, um baiano gay, vencer todos os "paredões" dos quais participa e ser o franco favorito para ganhar o prêmio de um milhão de reais ao final do programa. Isso significa que a preferência popular está sempre ao seu lado. "Ele está fazendo um bem danado à imagem da comunidade gay", disse meu chefe. "Sua conduta é sempre a mais equilibrada. Ele é a pessoa mais sensata, mais justa e mais inteligente dentro do grupo. Ele destoa completamente e está bem à frente dos outros."
As meninas comentaram o quanto torcem por ele e se emocionam com cada "paredão" ao qual ele "sobrevive". Eu sorri e disse, "Eu que não dou muita bola para esse tipo de programa estou acompanhando e até faço questão de votar pela internet, pelo menos uma vez, a cada paredão em que o Jean está." Os comentários em geral eram sobre o comportamento dele, tudo o que ele diz, sua maturidade e equilíbrio em todos os momentos. "Um pai ou uma mãe que veja o programa e tenha um filho gay deve ter pelo menos alguns momentos de reflexão, repensando opiniões e atitudes", disse meu chefe.
"E isso não é mesmo algo fácil", eu disse. "Nem para os pais, nem para o cara que tem que lutar tanto para superar tantos traumas e barreiras. Quando digo para as pessoas que conheço que todos no meu trabalho, na minha família e no prédio onde moro sabem que eu sou gay e me respeitam e me aceitam (não importa o que pensem de fato), todos acham muito bacana. Mas isso não foi conquistado da noite para o dia, é claro."
Hoje, eu não posso deixar de me perguntar a razão pela qual eu tive que passar por tantos momentos difíceis na minha vida. Rejeição do meu pai, incompreensão de muitas pessoas, piadas e momentos de ridicularização pelos quais passei durante a adolescência e pela vida afora. Hoje penso que tudo isso serviu para que eu me tornasse um homem mais forte, mais maduro e preparado. Serviu também para que eu aprendesse a aceitar as diferenças entre as pessoas com mais facilidade e compreensão.
Certamente ter "momentos difíceis" na vida não é um "privilégio" dos gays e muito menos meu. Mas o mais cruel de tudo é imaginar que a sua sexualidade, fator tão importante e decisivo na vida de qualquer um, é algo que deva ser escondido, sufocado e, pior ainda, motivo de vergonha. Quando eu era mais jovem e via um casal (homem e mulher) andando de mãos dadas na rua, trocando carícias ou um beijo na boca, pensava, "Eu nunca poderei fazer isso." Até hoje não ando na rua de mãos dadas com meu namorado. Já nos beijamos na boca em locais públicos (réveillon, passeata gay, praia não muito deserta...) e não escondemos o fato de sermos um casal quando estamos em público, mas não há a mesma sensação de liberdade e "naturalidade" que existe entre casais heterossexuais. Não há explicação para isso. E não importa mesmo. O que importa de fato, como li em algum lugar, "não é o que fizeram com a minha cabeça, mas sim o que eu fiz com o que fizeram com a minha cabeça."
A introdução do livro Gay Men and Women Who Enriched the World fala magnificamente sobre o que a experiência homossexual representa na vida de uma pessoa:
Confrontar e aceitar o valor de sua identidade gay, apesar dos esforços da sociedade em negá-lo, pode proporcionar a base para a força e auto confiança necessárias para deixar sua marca pessoal no mundo.
Participar da comunidade onde vivemos e compartilhar nossas vidas com outros é o que todos almejamos. Queremos ser admirados pelo que somos, pela maneira como agimos e pelos valores que temos. Sendo gay tudo isso fica mais difícil pois o esforço que deve ser feito é muito maior, uma vez que a sociedade tende a reconhecer apenas as pessoas que seguem os padrões pré estabelecidos de conduta e sucesso. Casar, ter filhos e construir uma família (ter uma linhagem e procriar a espécie) é o objetivo final de todos.
Gays precisam se "inventar" mais conscientemente do que os heteros ao "peneirar" os elementos fornecidos pela sociedade e encontrar aqueles que são mais apropriados para suas identidades homossexuais.
Quais serão meus heróis, meus modelos? Com quem eu me identifico? Perguntas como essas não passam na mente de um jovem gay de forma consciente, mas ele certamente não tem alguém em que se espelhar. Por isso sua determinação e auto confiança devem ser superiores, mais fortes para, assim, conseguir sobreviver à adolescência e juventude. O exemplo de pessoas como o Jean do Big Brother que não tem vergonha de dizer que é gay e que tem um comportamento claramente homossexual sem ter a atitude afeminada da "bichinha" (já que ele não precisa se esconder atrás de um esteriótipo) é o caminho ideal para que padrões sejam revistos e preconceitos quebrados.
Rezo para que mais pessoas tenham a coragem de assumir a homossexualidade e nos ajudem a criar uma nova sociedade. Sinto que isso está acontecendo. Ainda é pouco, mas é mais do que jamais tivemos. Por enquanto é uma brisa leve que sopra. Espero por um vendaval que varra tudo e nos permita respirar melhor.
Amém.

Clap Clap Clap
Você sempre me surpreendendo com sua flexibilidade ortográfica =)
Na minha vida foi um pouquinho diferente do que a maioria das pessoas, nunca tive crise existencial, meus pais foram e são muito tranquilos sobre isso, portanto sempre lidei com isso de uma forma muito natural, sem achar que era "big deal", apenas uma característica, como uma sarda, um queixo furado ou um sorriso largo.
Vê se não some, queridão! Grande abraço.
Pois é Moa, mais um texto muito bem argumentado. Sabe, não acompanhei nada desse programa. Nem me solidarizei com as agruras de Jean. Mas é impossível ficar alheio ao estardalhaço que a vitória dele causou na mídia. Eu confesso que fico confuso. Será que fomos bem representados? Parece que sim, pois foi mostrada uma pessoa que fugiu dos esteriótipos e escancarou as verdades inclusive de terceiros. Agora não sei se tudo isso vai ser uma revolução. Fico vendo alguns apoios à vitória de Jean que mais se parecem com manobras políticasou pretexto para festa. Um dia escrevi um texto para a faculdade falando justamente disso: a parada gay é um dia, um dia de 365, para os gays farrearem à vontade (desculpe-me, mas o que me vem à cabeça em primeira mão é isso e não uma luta por direitos). Depois desse dia tudo volta como antes. Na época eu dizia que era um dia no ano para que os "gays" pudessem estravasar tudo sem correr risco de levar um "coió" de alguém. Bem, mas a esperança continua não? É um passo de cada vez.
Oi Moa...
Comentando aqui.... como eu sempre faco...
querido... teu texto foi maravilhoso... adorei mesmo... soh me dah cada vez mais forca pra encarar a vida de peito aberto... nao posso dizer q comigo tenha sido mais facil ou mais dificil... soh sei q cada um tem a sua historia, suas dificuldades, seu tempo...
esse findi foi um passo importante pra mim q entre os meus melhores amigos da facul eu falei q tava quase entrando num namoro e eles me perguntaram quem era e eu falei q era Diego.... alguns ficaram atonitos e outros agiram com naturalidade.... muito legal.....
essa soh foi pra ilustrar um pouco.. nao sei quanto tem de importancia.... mas q eu achei legal falar...
bjs
Moacir, cheguei aqui através da Fer já faz um tempo, sempre te leio, mas nunca comento. No entanto, ficar calada diante deste texto é impossível. Bravo! É tudo o que tenho a dizer! Assino embaixo do teu manifesto!
Beijos!
QueridAO,
So quero dizer duas coisas: voce e uma pessoa maravilhosa e eu te adoro!
tchau,
saudades e
beijoooos! :-)