Tenho dois problemas. Idéias e preguiça demais. Acabei de ler um livro e toda vez que leio algo que gosto fico com vontade de escrever. Mas falta-me a disciplina necessária para fazê-lo. Não posso escrever e estar online ao mesmo tempo. As distrações da internet são inúmeras e não há como manter a concentração. Para escrever preciso me concentrar.
O livro em questão é Flush da brilhante Virginia Woolf. Flush é um cocker spaniel, cão de companhia de Elizabeth Browning, nos idos de 1840. A vida de Elizabeth, sua mudança de adoentada para saudável, de solitária para apaixonada e casada, de moradora de Londres para Florença, na Itália, tudo isso é percebido e narrado do ponto de vista de Flush. Para amantes de cachorros não há nada mais fascinante. E quem diria que um dos maiores sucessos de venda de Virginia Woolf seria justamente esse pequeno volume, tão delicado e engenhoso.
Quando terminei de ler sentei ao sol abraçado à minha cocker spaniel, que me escolheu para ser seu dono há três anos e meio atrás e nunca mais saiu da minha vida. Ela alegra meus dias, me faz companhia e me proporciona amor do tipo mais pleno e intenso. O amor de um cão é insuperável. Aquece, conforta e enobrece por sua capacidade de resignação, entrega e fidelidade. Não existe uma gota de egoísmo nos cães. E quando eles pedem insistentemente é por fome ou vontade de satisfazer necessidades fisiológicas. Minha filhuska me olha de diversas maneiras diferentes, dependendo do momento e nos comunicamos melhor do que me comunico com a maioria das pessoas. Ela me entende e eu a ela. E com isso meus dias de tédio e chatice são acalentados pelo seu carinho e compreensão. Ela é minha companheira na hora de ver os filmes "chatos e velhos" que vejo em DVD. Minha filhuska já viu The Little Foxes e apreciou o revolucionário trabalho da câmera de Gregg Toland. Já saboreou o confronto entre Katharine Hepburn e Cary Grant em The Philadelfia Story e já se deliciou com as desventuras das personagens de Angels in America. Mais de uma vez, diga-se de passagem. Hoje ela é capaz de assistir Rocco e Seus Irmãos seguido da entrega do Emmy, deitada ao meu lado no sofá, em pleno contentamento e total abandono. É ou não é para amá-la acima de tudo?

Entre afagos e lambidas as horas de ócio vão se passando. Voltar para casa após um dia de trabalho é garantia de ser recebido com uma festa digna de saltos, uivos, cambalhotas e latidas. Ele chegou! Ele chegou!! Abraços e aquele olhar de conforto, de encontro e plenitude que enche meu coração de satisfação.
Enquanto isso minha mente continua fervilhante de idéias. PRECISO escrever sobre The Little Foxes. Impossível ficar passivo a um filme que acumula uma história intrigante sobre ganância a qualquer preço, uma narrativa cinematográfica no melhor estilo de Orson Welles, fazendo com que The Magnificent Ambersons fique parecendo um simples ensaio, a direção meticulosa e precisa de William Wyler onde nada é gratuito ou exagerado e uma performance de Bette Davis que me faz ponderar se All About Eve é mesmo o seu melhor desempenho.

Mas para fazer uma análise digna do filme preciso da tal disciplina, organização e empenho que não tenho tido ultimamente. Assistir filmes é tão mais fácil do que escrever sobre eles. Meu fascínio e encantamento com a linguagem cinematográfica é tão grande que temo não saber transformar tudo isso em palavras. Mais ou menos como a própria Virginia Woolf disse, ao se referir à capacidade de Flush (e todos os cães) em perceber o mundo através de cheiros. Aquele olfato apurado percebe detalhes, nuances e contornos que nossos olhos nunca serão capazes de perceber. E não há palavras para descrever o prazer que um cão sente ao sair para um passeio na rua, por exemplo. Da mesma forma, me sinto limitado e impotente diante da força das imagens de determinados filmes e da magia que a edição dessas imagens consegue criar ao contar histórias e criar realidades.
Talvez Virginia Woolf pudesse me ajudar. Vou começar a ler Orlando. Ou seria melhor rever The Hours, abraçado à filhuska no sofá? Que dúvida...
Cachorro é legal, mas gato é beeeeeem mais legal.
;-)
Também quero um cão. Também quero ler Virginia Woolf.
E gostei daqui.