O essencial e o acidental

Há experiências pelas quais a gente passa que não adianta querer compartilhar com os outros. O mais profundo de determinadas sensações e descobertas não é possível de ser percebido por quem não passa pela experiência em si. E ela é sempre diferente de uma pessoa para outra.

Isso está em nós e é impenetrável
É o que nos resta que podemos dividir
Nunca o essencial
mas o acidental, o por acaso, apenas isso
os momentos de nossas circunstâncias*

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A vida deveria ser apenas uma seqüência de prazeres. Comer, beber, gozar, rir, chorar, dormir, nadar. Sentir o sol, a chuva e o vento. Ver o céu estrelado, os primeiros passos de uma criança, o amor nas pupilas de um cão. Dormir abraçado. Andar de mãos dadas. Ver filmes, ouvir música, conhecer pessoas. Ir à praia. A cada dia, entretanto, percebo que o propósito dos prazeres carnais (e a insatisfação que sua ausência nos causa) é o amadurecimento espiritual.

"Você também mudou," meu amigo me disse. "Não tem mais a mesma disponibilidade. Isso é compreensível já que todos os nossos dias dependem de negociações. No trabalho, em casa, no lazer, em tudo."

Senti um vazio estranho. Estre esse amigo e mim havia, de repente, um abismo enorme. Houve uma época em que eu fantasiava a idéia de que grandes amigos compartilhavam, com sucesso, o mais significativo de suas experiências. "A fantasia, obviamente, NUNCA corresponde à realidade," me disse outro amigo. Sinto saudades dos meus amigos.

Mas só podemos dividir o que nos resta
o que nos certa
esse vazio
teu sótão
uma laranja.*

Envelhecer não me torna mais sábio. Talvez mais paciente, mais reservado, até condescendente. As expectativas mudam e meus dias ganham contornos inesperados ao me perceber feliz em saber que meus amigos estão presentes mesmo que distantes. Nossas vidas estão ligadas por um fio invisível, feito de acidentais detalhes, gestos, falas e sorrisos, que os tornam essenciais.
*Trechos de LASCAS de Bruna Lombardi
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4 Comments

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belíssima imagem. belíssimo texto.

Hey, faltou dizer, CUMPLICIDADES E SEGREDINHOS... Sabia que ia ler um texto seu que traduzisse o que sentia, Papusko! Isso tá ficando perigoso!
Tô me adorando 'madura', não velha! Esses meus reencontros, onde havia 'lacunas' que estão sendo preenchidas têm me dado forças e me mostrado o quanto amadurecemos - sim, eu e eles... (Ai, eles, é tão-tão que nem-nem!).
Não pense em 'envelhecer', e sim em 'amadurecer'. Isso faz a vida ter mais sabor, nos dá mais força pra arriscar e preocupar menos com o 'que os outros vão pensar'... É bom demais, UAI! Bjus... Tô me amando nessa fase 'quero que você me aqueça neste inverno, primavera, verão, outono, E QUE TUDO MAIS VÁ PRO INFERNO!'
CARPE DIEM!

Li uma vez, em algum lugar, que não devemos escrever sobre certas coisas, porque palavras as reduziriam a... palavras. E não conseguiriam passar toda a intensidade, a grandiosidade. Deve ser o mesmo com dividir. Ou é aquele egoísmo de dividir, mas esconder o melhor em um lugar só nosso.
Quem sabe?

E a foto é linda.

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