Quando eu era criança eu morria de medo de cachorro. Lembro de termos tido duas cadelas da raça pequinês mas deve ter sido por uma semana. A mãe, Laika, era preta e calma, carinhosa e ficava na dela. Eu gostava dela. A filha, Wandeka (que nome...), era cor de mel (na minha memória) e era uma "pestinha", corria e pulava o tempo todo, para todos os lados. Me lembro quando ela chegou e eu subi na lata de lixo (um latão grande, com tampa) e fiquei lá, com medo da cachorra.
Lembro também quando fui à minha primeira aula de inglês e um cachorro que vivia no pátio do colégio veio brincar comigo e eu achei que ele queria me morder. Tive uma crise de choro de puro pânico. Eu tinha 10 anos. Esse "pânico" durou anos.
Depois, já "burro velho" eu comecei a sentir algo diferente pelo vira-latas que meus pais adotaram (ou que adotou meus pais, melhor dizendo). Ele já era adulto e era super popular em todas as casas lá na praia onde meus pais moram. Mas resolveu adotar meus pais e viver com eles. A casa dos meus pais não tinha muro e o Chulim (meu pai deu esse nome) saía pra passear mas voltava sempre, até o dia em que não saiu mais. Minha mãe começou a dar banhos nele, remédio etc e tal. Virou membro da família. Ele nunca entrava em casa, mas no Natal e no Ano Novo o pobre Chulim sofria. Às vezes ele desaparecia na hora dos fogos e só o víamos no dia seguinte. Mas depois, mais velho e inserido na família, a gente deixava ele entrar em casa e ele ia se esconder embaixo da mesinha de cabeceira do quarto dos meus pais. Eu largava a festa e ia lá ficar com ele. Tapava os ouvidos dele com as mãos e dizia, "Tá tudo bem, Chulim. Não se preocupe que já vai passar." Como ele vivia fugindo pra ir "namorar" e perambular pela rua os banhos não tinham uma duração muito boa e normalmente ele fedia horrores. Mas isso não me preocupava naquelas horas. Eu só queria confortá-lo.
E assim foi até que eu me casei e cedi às tentações de ter um filhote. Resolvi que uma fêmea era o ideal e que Cocker Spaniel era "a raça". Quando trouxe a Kikinha de surpresa para casa ela tinha uns dois ou três meses e era a coisa MAIS LINDA DO MUNDO (a foto acima é dessa época). Eu tinha sido transformado, através do meu amor por uma pessoa, em um amante inveterado de cães e a Kikinha foi o mais perfeito canal para me fazer perder todos os medos e baixar todas as guardas em relação aos cães de qualquer raça, tamanho ou origem.
Hoje eu olho todos, faço carinho em um monte deles, em vários lugares, converso e me preocupo com o bem estar de todos. Não tem amor mais puro, desinteressado e gratificante. No caso da Kika eu arrisco dizer que poucas vezes senti uma ligação tão forte, talvez com duas ou três pessoas, a minha vida toda. É uma benção, não tenho dúvidas.